“Um Senhor Estagiário” e a dicotomia entre gerações

Ontem a noite, estava eu caçando algum filme bobinho para assistir na Netflix, quando acabei parando em “Um Senhor Estagiário”. O filme é estrelado por Robert De Niro e Anne Hathaway, e conta a história de um senhor chamado Ben (De Niro) que, entediado com a vida de aposentado, resolve se candidatar a uma vaga de estagiário senior em um e-commerce de roupas.

A princípio Jules, a CEO da empresa (Anne Hathaway) não fica muito animada com a ideia de ter que trabalhar com um idoso, mas logo o carisma, dedicação e bom trabalho de Ben a conquista, e os dois passam a ser grandes parceiros de trabalho. Porém, o que realmente me chamou a atenção no filme, mais do que a relação entre a jovem empresária workaholic e o simpático administrador aposentado, foi a gritante diferença entre os comportamentos e características das duas gerações de profissionais.

Ben passou 40 anos trabalhando na mesma empresa de listas telefônicas, até se aposentar; foi casado com a mesma mulher a vida toda; usa terno e gravata religiosamente, é pontual, leva seu próprio roupão em viagens e não sabe ligar um MacBook. Em contrapartida, Jules tem um marido “dono de casa”, que abandonou a carreira bem sucedida no marketing para cuidar da filha do casal, e está passando por uma crise no casamento. Criou sua loja de roupas do zero e a levou ao sucesso, mas agora está sendo pressionada pelos acionistas a contratar um novo CEO, pois eles acreditam que ela não da conta do volume de trabalho. Gerencia a empresa de maneira horizontal, anda de bicicleta pelo escritório e chega atrasada a todos os compromissos.

Quando comparamos Ben com os outros estagiários de idade regular, então, a diferença fica ainda mais gritante. São homens adultos, mas se comportam em muitos momentos como adolescentes. Se vestem casualmente demais, não fazem grande esforço para pentear o cabelo e, um deles — o que entrou na empresa no mesmo dia que Ben — ainda mora com os pais, pois não consegue pagar um aluguel perto da empresa com seu salário. Quando os pais o obrigam a sair de casa, ele passa algumas semanas hospedado na casa de Ben, e pede para que ele o acorde, pois tem dificuldade para levantar só com o barulho do despertador (!!).

Bem, no meio, e à sua direita o estagiário dorminhoco

Minha intenção aqui não é ser a saudosista conservadora que vai dizer que a geração millennial está perdida e que no tempo dos nossos pais que era bom; sem dúvida alguma, nós evoluímos em diversos aspectos; seria impensável para uma jovem mãe na casa dos 30 anos presidir uma empresa 40 ou 50 anos atrás, por exemplo. Mas, por outro lado, não consigo deixar de perceber como a mudança positiva foi acompanhada por vários problemas.

A adolescência se estende por um período cada vez maior de tempo. Passamos anos e anos na faculdade, trocamos de curso pois não nos identificamos com o primeiro, vamos nos formar quase nos 30; demoramos cada vez mais para sair da casa dos pais, pois nossos empregos não pagam salários que nos permitam bancar um aluguel e, mesmo quando permitem, não queremos perder a mordomia e a zona de conforto da casa da mamãe. Ter filhos então, esqueça. A taxa de natalidade cai sem parar, e raros são os casais com menos de 30 anos que planejam ser pais em breve.

Passamos cada vez mais tempo assistindo NetFlix (eu inclusa!), jogando video-game, virando as páginas do cardápio humano chamado Tinder, discutindo se aquele super-herói vai ou não ressuscitar no próximo filme da Marvel, e buscamos evitar a todo custo lidar com as questões da vida adulta. Nos protegemos no aconchego do nosso quarto de adolescente na casa dos pais (o meu tem as paredes lilás e cobertas de posters de bandas emo, risos) e nos recusamos a sair e encarar o mundo real, as responsabilidades, os problemas, mas também as coisas boas; a liberdade e as possibilidades que uma vida independente nos proporcionam.

Portanto, a reflexão que o filme me trouxe não é a que devemos voltar a casar aos 20 e ter filho aos 22, trabalhar até se aposentar na mesma empresa ou cancelar a NetFlix e jogar fora nossos action figures; o ponto é não permitir que o medo e a insegurança com a vida adulta nos tornem eternos adolescentes. É saber dosar e aproveitar da melhor forma tudo que a internet e a tecnologia no geral nos trouxeram, mas sem esquecer que vivemos num mundo real, com seus problemas, dificuldades, mas também cheio de oportunidades e satisfações verdadeiras, pra quem tiver a coragem de aproveitá-las.

Se identificou? Então deixa um comentário dando sua opinião, de descordou, deixa também e me conta o por quê. Ah, não esqueça das palminhas, e até a próxima :)

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Bióloga por formação, escritora por paixão.

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Letícia Arcanjo

Letícia Arcanjo

Bióloga por formação, escritora por paixão.